quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A biblioteca entre livraria e lan-house

Hoje era o dia de visitar a moderníssima Biblioteca de São Paulo, a mais recente iniciativa cultural do Governo do Estado de São Paulo em parceria com a Poiesis. O novo edifício é abrigado pelo Parque da Juventude, projeto construído sob as ruínas da desativada porém inesquecível piscininha de Fleury.




Lembrei-me logo de cara da conversa de que a biblioteca nova seria semelhante a uma livraria. Fui recebido com excelente humor e aconchego pela segurança. Pertences alojados no guarda-volumes, encarei a fila para me cadastrar na instituição - algo normal em se tratando de inauguração.

A bibliotecária responsável pelo cadastramento dos usuários e pela confecção da carteirinha parecia ter chegado junto comigo. Cada passo do processo se apresentava a ela como uma grande e demorosa novidade. Após tirar minha foto, demonstrou não saber o que fazer com ela por um longo tempo. O número do meu RG foi registrado com erro no documento, mas não me importei; havia acontecido o mesmo com a senhora que estava à minha frente. Educado, prefiri o silêncio.

O piso térreo é dedicado ao público infantil, e a criançada fazia presença em quase todos os espaços, à exceção dos corredores das estantes. Sem economia, vi apenas uma criança com um livro nas mãos. O resto estava totalmente entregue às atrações audiovisuais. Uma bela lan-house.

Subindo as escadas rumo ao setor dos adultos, dei de cara com uma estante intitulada "mais vendidos" - triste demonstração de que aquele papo de biblioteca-livraria era sério mesmo. Para distrair-me da depressão instantânea, passeei pelo que seriam as estantes de livros novos. O curioso é que a maioria dos livros do neófito acervo parece ter sido comprada há pouco tempo. Ao menos a literatura contemporânea tem destaque. A estante de obras de referência também contribuiu para a minha animação.

Depois de um tempo, deparei-me com livros já marcados pelo tempo, dispostos aleatoriamente em estantes baixinhas que margeiam os corredores laterais. Senti-me um tanto perdido ao vagar pelo espaço do andar de cima. Não que seja vasto, mas a organização dos exemplares é bastante precária, caseira mesmo. Uma vergonha para uma biblioteca. E talvez para uma livraria também.

Enfim consegui encontrar os exemplares que procurava: "A arte de produzir efeito sem causa", de Lourenço Mutarelli, e "Vidas Novas", de Ingo Schulze. Carreguei as obras para uma poltrona colorida, sentei-me e degustei algumas páginas. Decidido a levá-las para casa, esbarrei num dos pecados mortais de toda biblioteca: oferecer aos consulentes volumes que ainda não foram catalogados.

Frustrado, retornei ao piso superior. Saquei "Duzentos ladrões", de Dalton Trevisan; "Ó", de Nuno Ramos; e "O amante detalhista", de Alberto Manguel. Contente, cheguei ao guichê de empréstimo.

Em sintonia com a bibliotecária que havia me recebido, o funcionário que então me atendia fazia questão de evidenciar que chegara precisamente naquele momento àquele posto. Eu sempre brincava, dizendo que nas repartições públicas, existe um que domina o ofício e o restante que lhe pergunta. Constatei que é a pura verdade.

Depois de 15 minutos, após observar a avançada disfunção tecnológica à disposição no balcão, pude cadastrar minha senha personalizada de quatro dígitos e levar comigo os livros.

Parece que temos tendência à insatisfação. Quero crer, no entanto, que trata-se apenas de não nos contentarmos com pouco. Há mais estandartes que estantes na Biblioteca de São Paulo. Muita estrutura, pouca literatura. Pensando em seus administradores, tenho a impressão de que a Poiesis se dedica, na verdade, a transformar instituições em aquilo que elas nunca foram. (Veja-se o Museu da Língua Portuguesa: inovador, interativo, mas de museu não tem nada.) Sei que laranja não é banana e não quero parecer conservador: tecnologia e interatividade são importantes. Mas não me agrada constatar que numa biblioteca os computadores tenham muito mais audiência que os livros.

Há que se reconhecer que o projeto é novo e muita coisa deverá ser feita ainda. Sinceramente, duvido que uma mudança substancial ocorrerá, dado que leitores não se criam do dia para a noite, ainda mais sem um projeto de Educação sólido e efetivo nas escolas. Mas meu coração não se cansa de ter esperança.

Atendimento

A Biblioteca de São Paulo funciona de terça a sexta, das 9h às 21h; e aos sábados, domingos e feriados, das 9h às 19h. A entrada é franca.


O estacionamento é pequeno e pago. Recomendo ir de metrô. Fica ao lado da estação Carandiru (Linha Azul). O endereço: Av. Cruzeiro do Sul, 2.630 - Prédio 3 - Parque da Juventude.


Leve seus filhos para passear.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A fragilidade da verossimilhança


Um filme delicado que conta uma história de amor. É deste modo que o cineasta Aluizio Abranches justifica "Do Começo ao Fim", longa-metragem que estreia no circuito comercial nesta próxima sexta-feira (27). De fato, ao tatearmos possíveis definições para o mais recente trabalho do diretor de "Um Copo de Cólera" (1999), cujos temas centrais (e interdependentes) são a homossexualidade e o incesto fraterno, esta sintética categorização talvez seja, em última análise, apropriada. No entanto, apenas encontra aplicação e sustentação por conta das inúmeras inconsistências narrativas que se revelam ao longo da trama. E "delicado", definitivamente, estaria mais para frágil que para sutil.

Franciso e Thomaz são irmãos, ambos filhos de Julieta - o primeiro, fruto do casamento com o argentino Pedro; e o segundo, com o arquiteto Alexandre, atual marido da serena médica. Desde cedo criam entre si um vínculo afetivo muito forte, alimentado pela felicíssima tranquilidade de uma família rica "que não precisa fazer história". É neste ambiente familiar para lá de idealizado, ao melhor estilo "comercial de margarina", que os dois garotos, separados por uma distância de seis anos de idade, descobrem a cada episódio cotidiano uma cumplicidade ilimitável. Após a morte do pai de Francisco e, logo em seguida, da mãe de ambos, os dois rapazes recém-crescidos se veem confrontados com a perda do sentimento de eternidade cultivado durante a venturosa infância. É justamente a partir daí que, dando continuidade a um processo natural, entregam-se à materialização de um amor que não encontra resistência para se fazer absoluto.

É bastante nítida a intenção de elevar o amor ao plano do sublime. Durante esse percurso, porém, ocorrem deslizes que comprometem de maneira drástica a verossimillhança do enredo. O mais grave dos pecados, não resta dúvida, foi o apagamento dos necessários (ou, ao menos, possíveis) conflitos que se poderia supor na história. A consequência desta omissão foi a apresentação de um desfecho sem a mínima força.

Tudo se desenrola a partir de uma perspectiva interna: a relação entre os dois irmãos (que jamais brigam senão por ciúme um do outro) não é acompanhada (de perto ou de longe) por mais ninguém. Fora uma pequena e despreocupada suspeita por parte dos "futuros falecidos" Pedro e Julieta, quando eles ainda eram pequenos, ninguém mais parece se dar conta desta intimidade insólita que caminha para o mais chocante dos extremos. O conveniente salto temporal (que assassina estrategicamente os únicos observadores) só ajuda a eliminar por completo as tensões sociais. Nada de amigos, vizinhos, colegas de escola ou de faculdade participando de alguma forma na história. Isolados e inabaláveis, vivem um para o outro de maneira plena. O comportamento complacente do viúvo Alexandre perante os dois - ele decide morar sozinho, deixando a belíssima casa da família para os filhos - é inaceitável. Dada a impossibilidade de um "crime sem suspeita", é tão absurdo pensar numa desesperadora aceitação quanto num gigantesco descuido do fato de que, além de irmãos, Thomaz e Franciso são homens que se amam eroticamente.

Não bastasse a imperdoável ausência de conflitos externos - como se fosse possível pensar num relacionamento homossexual e incestuoso(!) sem o menor eco de enfrentamento social - é marcante a inexistência de conflitos internos. Não há o mínimo aprofundamento psicológico das personagens, as quais jamais se fazem conhecer individualmente; não se questionam, não refletem sobre si mesmas e sobre o amor que vivem. Além disso, a forçosa (e momentânea) separação do casal - quando Thomaz, nadador, aceita o convite para treinar fora do país - só é capaz de produzir um ciúme algo incongruente, deslocado.

"Do Começo ao Fim" está longe de comover, e tampouco é capaz de indignar. O incesto, tema recorrente nas artes, tão capaz de ordenar as maiores tragédias, se defende (sem ser acusado) da forma mais singela - senão tosca. Ao final, mal dá para concebê-lo como tal. A abordagem da homossexualidade parece tentar nos convencer de que este tabu não existe mais, e isto é talvez o que parece mais falso no mundo maravilhoso desenhado pelo filme. Em compensação, o sexo se impõe na tela de modo intenso, mas sem ser apelativo - o que parece ser bom para o propósito do filme, qualquer que seja ele.

O que talvez mais decepciona é a constatação de um certo descuido do belo: raras são as cenas de verdadeira beleza, frequentemente acompanhadas por uma desagradável trilha sonora - que simplesmente não precisaria existir. A passagem em que os dois dançam tango, por exemplo, desde o início nos força a pensar sobre como poderia ter sido linda; mereceria uma dedicação maior.

Para a triste surpresa deste espectador, o grande destaque do longa (cujo conteúdo, em tese, seria o mais chocante possível) termina sendo a presença constante do humor - este sim, caprichado e certeiro.

Em tempo: Soube no debate com Abranches, após a pré-estreia no CinUSP, que o cineasta planeja uma comédia em seu próximo projeto. Só espero que ele não acerte novamente apenas nas piadas.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Loucura
É algo estranho, insólito
Não-sóbrio, não-sólido
Não se sabe o que é, ou mesmo se há cura

Loucura
É um frio em alta temperatura
Não se entende (e não se tenta, se pode entender)
É deixar de ser o que não se deve ser

Loucura
É a vontade nunca aceita
O remédio sem receita
Pra curar o tédio - ou a razão cansada de tanta desfeita