domingo, 26 de fevereiro de 2012

Erros em publicação oficial do Memorial da América Latina evidenciam necessidade de (boa) revisão


O trabalho de revisão de textos, ao menos para mim, não consiste simplesmente na correção ortográfica e gramatical de um texto. É fundamental que o revisor não se limite a conferir se a palavra "casa" não está grafada como "cosa" ou como "caza". Cabe a ele atentar também para a fluidez e o estilo do texto, bem como para os elementos extratextuais (nomes de pessoas e lugares, datas e outras referências).

Em suma, é dever do revisor desenvolver uma leitura minuciosa da matéria textual, intervindo nela sempre que preciso a fim de que o produto final seja o melhor possível. Muito além de um capricho formal próprio de puristas da língua, a revisão serve aos interesses de todos: do autor, que não quer ver seu texto repleto de incorreções, e também do leitor, para quem todo texto deve ser fonte segura de dados e informações.

Um ótimo exemplo da necessidade de uma boa revisão encontra-se na edição de n. 44 da "Revista Nossa América", publicação oficial do Memorial da América Latina. O periódico traz interessante matéria sobre Portinari e a inédita exposição dos painéis "Guerra" e "Paz" no Brasil.

O texto, assinado pelo jornalista Eduardo Rascov, é acompanhado por algumas reproduções de obras de Portinari cujas legendas estão totalmente desencontradas.

Na página 26, um estudo para o painel "Guerra", intitulado "Mulher chorando", no qual há uma inequívoca figura feminina ajoelhada, às lágrimas, com as mãos nos cabelos, recebe a inusitada legenda de "Plantando bananeira" (1955):



Já na página 27, finalmente encontramos o desenho "Plantando bananeira". No entanto, a legenda indica que se trata da obra "Menino com diabolô", que sequer aparece na publicação:



Noutro artigo da mesma edição, em que o cientista político Helgio Trindade fala sobre a Universidade da América Latina (Unila), o sobrenome de nosso arquiteto mais célebre e longevo, autor do projeto do campus da Unila, aparece grafado como Niemayer. Duas vezes. Um erro inadmissível até para secundaristas desatentos.

Os exemplos citados demonstram que o trabalho de revisão envolve questões muito além da norma gramatical. Não se pode estar alheio ao conteúdo dos textos. Falhas graves como as apontadas acima não só ameaçam a credibilidade do periódico como também podem induzir leitores desavisados a equívocos desnecessários.

À equipe da revista, um alerta: é preciso, no mínimo, dar mais café para o revisor.


"Nossa Memória" é publicada trimestralmente e custa R$9, mas é possível ler e baixar gratuitamente a edição n. 44 por meio do link abaixo:

http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/revistaNossaAmerica/44/revista44-port.pdf

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Você não me quer como aluno da USP"

Este blogue tem sido, até então, destinado a publicações bissextas de minha autoria, em geral motivadas por eventos considerados críticos e relevantes cultural, social ou politicamente.

Desta vez, concedo uma exceção e abro espaço para um ótimo texto do economista Cleber Pelizzon. Trata-se de uma reflexão fundamental - e, em certa medida, inédita em termos de perspectiva - a respeito da situação política vivida atualmente na Universidade de São Paulo.

Boa leitura,
Laion Castro

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Você não me quer como aluno da USP

por Cleber Pelizzon
11/11/2011


Um grande amigo pediu minha opinião sobre os acontecimentos recentes na USP. Agora longe de São Paulo, quis saber como alguém da USP e, além disso, da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade), vê toda essa situação. Realmente de longe fica difícil entender. Temos de passar por uma cortina de fumaça criada pelos mais diversos meios de comunicação, é bem verdade.

No entanto, não posso me colocar em uma posição de esclarecimento dos fatos, por si só. Já existem relatos suficientes para isso, de alunos que estavam nas assembleias ou no momento da ocupação. Já existem também diversas análises interessantes sobre o que aconteceu (aqui e aqui). Estou somente na posição de falar como um aluno da USP que ao mesmo tempo é da FEA, ou seja, um monstro formado por ambiguidades.

Sou aluno da FEA. Trabalho durante o dia, 10, 12, até 14 horas por dia. Estudo à noite. Ou melhor, vou às aulas quando posso. Como trabalhador, pago meus impostos. Como somente vou à USP para assistir às aulas e nunca depredei o chamado patrimônio público, sou um bom beneficiário dos cidadãos que, com seus impostos, pagam por minha educação. Não sou “vagabundo”, não fumo maconha no campus.

Mas você não me quer como aluno da USP. Fazendo o que eu faço atualmente, estou simplesmente colocando seu precioso dinheiro no bolso. Do conhecimento que adquiro nas salas de aula, faço uso somente em meu benefício, pois consigo um emprego melhor, um bônus melhor no final do ano, mais lucro para meu empregador. Mas, ainda assim, muitos acham que me querem como aluno da USP.

Como alunos da USP, aqueles que participaram e participam das assembleias, aqueles que invadiram e invadem reitorias, estão, permitam-me, fazendo o que se espera de um aluno da USP. A Universidade é o lugar onde se questiona, onde se reflete sobre nossos problemas, onde se ensina e onde se aprende. A universidade é o lugar para indignar-se, para pensar em um mundo melhor. Utópico? É este o papel da universidade: proteger o pensamento crítico que vai mudar o mundo.

O que os vagabundos fizeram foi justamente trazer a atenção para diversos problemas que enfrentamos atualmente. Com a escolha unilateral do atual reitor, temos o fantasma da ingerência. Com as ações friamente calculadas do atual reitor, que desqualifica os protestos dos estudantes manipulando (ou seria compactuando com?) a mídia, trazendo a atenção para a camiseta de marca, para a depredação (que, sabemos todos, não existiu), temos o fantasma da perseguição, da tentativa de nos tornar todos dormentes. Com os gritos de “vagabundo” e “maconheiro”, mergulhamos no abismo do debate raso sobre as drogas em nossa sociedade. Com os gritos de “mimado” e “playboy”, nos perdemos na escuridão que é o debate da segurança pública.

Quem você quer como aluno da USP são justamente eles, e não eu. São aqueles que, gozando de sua juventude, são revolucionários, sabem que seu papel é pensar em maneiras de mudarmos para melhor, e não aqueles que veem a universidade como um instrumento de formação de técnicos que, mais tarde, como arquitetos, não se perguntarão quantas casas faltam em nossos países, como bem disse Allende. São aqueles que defendem uma universidade livre para pensar, mas também que defendem uma sociedade livre para pensar; que, da mesma maneira que não querem uma polícia que persegue estudantes, não querem uma polícia que persegue membros de uma comunidade no morro.

Mas, e a ocupação? Sou a favor. Apesar de ter ocorrido daquela maneira, após decisão de assembleia contra a ocupação (pelo menos o que li foi que foi aprovada mais tarde, depois de uma redução drástica de quórum), aqueles alunos tiveram a coragem de se expor e expor a situação crítica em que nossa universidade (e a sociedade) se encontra. A coragem daqueles alunos (que não são ingênuos como muitos disseram e sabiam que seriam presos e humilhados) permitiu que meu grande amigo, admirador de Allende e Mário Quintana, pudesse discutir a universidade, a polícia e a sociedade com colegas, familiares, estudantes e trabalhadores que, de outra maneira, estariam tão distantes da USP.

Não desejem estudantes dormentes. Desejem estudantes sonhadores.

Em tempo: os alunos da FEA, e da USP, querem segurança, o que não quer dizer que querem a Polícia Militar no campus. Os alunos possuem propostas claras e objetivas para a solução da segurança: mais iluminação (você sabia que é a política de segurança pública mais eficiente?), abertura da universidade para circulação de pessoas, ou seja, maior integração à cidade (o que significa que não nos vemos como um oásis no meio da cidade), policiamento por uma guarda universitária equipada e composta por mais mulheres (queremos sim, um policiamento independente e que possa prezar pela segurança das pessoas sem ser um instrumento de coerção, coação, repressão). Todas são medidas comprovadamente eficazes.

Cabe, ainda, apontar que o assassinato de nosso colega da FEA não foi a causa da PM no campus. Como? Ora, a presença da polícia militar já estava ocorrendo de forma mais intensiva no campus antes do ocorrido. Não se pode dizer que o número de incidentes diminuiu com a PM (a USP possui estatísticas de ocorrências). A PM no campus é, sim, consequência deste ocorrido, pois foi usada para criar um embate entre bons e maus: maus são os estudantes, que querem fazer o que bem entendem no campus sem policiamento; bons são o reitor e o governador, que passaram por autoridades preocupadas com a segurança dos estudantes “a favor da PM”, dividindo o movimento estudantil, colocando a população contra os estudantes.

(Agradeço ao caro amigo Tainã Novaes, crítico e sonhador)

sábado, 14 de maio de 2011

A norma popular nos livros didáticos: desafio ao preconceito linguístico

Um dos mais graves erros cometidos pelos falantes de nossa língua, por incrível que possa parecer, não é de ortografia nem de concordância, mas de preconceito. Motivado pela ideologia e sustentado por um punhado de mitos e conceitos distorcidos, os quais encontram eco em todas as esferas da sociedade, inclusive na sala de aula, o preconceito linguístico está longe de acabar e revida sempre com violência àqueles que o combatem.

Indicado e distribuído pelo MEC a quase 500 mil alunos de 4.236 escolas por meio do Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), o livro Por uma vida melhor, da coleção “Viver, aprender”, foi duramente criticado em alguns veículos de mídia, dentre os quais o blog do jornalista Reinaldo Azevedo, da revista VEJA. O motivo é a presença de um conteúdo que apresenta a norma culta ao lado da norma popular, desvendando os mecanismos de ambas sem que haja preferência de uma em relação à outra:



Ora, adotar uma postura reativa ou mesmo “desconfiada” em relação ao livro e à metodologia de ensino nele contida só demonstra a profunda ignorância de tio Rei (e de outros como os colunistas do Poder Online, do Portal iG) a respeito dos estudos da Sociolinguística e seu papel no combate ao preconceito linguístico - que linguistas como Marcos Bagno, dentre outros, já demonstraram ser um preconceito fundamentalmente social.

Uma das grandes dificuldades encontradas pelos profissionais de Letras egressos da Universidade é saber que tudo aquilo que foi estudado, discutido, pesquisado e proposto na Academia dificilmente chegará efetivamente à sociedade. Como atuar além das dissertações e teses que amarelam nas estantes? Como promover transformações num âmbito maior do que as microssalas que abrigam simpósios e colóquios?

Sabemos que a gramática tradicional e a norma culta, cada vez com menos prestígio entre os linguistas, são permanentemente valorizadas e cultivadas como valor na sociedade. Ambas apresentam-se não só como um padrão ideal de linguagem a ser perseguido pelo falante, mas também como um elemento de seleção e exclusão no mercado.

Como reverter esse quadro senão oferecendo, nos bancos escolares, algo além do ensino normativo da língua portuguesa? Evidentemente, é necessário educar apresentando a perspectiva normativa, afinal ela nos serve, principalmente durante o período de alfabetização, como instrumento de comunicação - trata-se de um código em comum. Por outro lado, não menos importante se faz a educação para a diferença, para as particularidades, para aquilo que é local, genuíno, para aquilo que escapa à norma.

Ver, portanto, que a gramática normativa cedeu espaço para a apresentação das variantes como uma realidade da língua - e não como uma aberração, um erro, algo que não existe - é razão de celebração! Enfim, uma iniciativa que parece, sem exagero, mudar o quadro de dificuldades da extensão universitária. Caminhamos, assim, para uma educação que permita de fato a percepção e o questionamento das contradições à nossa volta.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Onde os Livros Não Têm Vez

(ou 'No Library For Proper Books')


Voltei a experimentar, nesta tarde de quinta-feira, algo que há muito não vivia: sentei-me no chão gramado e, recostado a uma árvore, pus-me a ler até que a chuva se precipitasse, obrigando-me a correr em busca de abrigo. Decidi que isto merece se repetir outras vezes. Conto apenas que não seja pelas mesmas razões.

Recorri ao gramado, a princípio, para poder apoiar as costas durante a leitura. Afinal, os bancos existentes no Parque da Juventude - precisamente na praça entre a ETEC e a Biblioteca de São Paulo - não possuem encosto. E - era justamente aqui onde queria chegar - eu apenas cogitei a possibilidade de tomar assento nesta praça porque minha entrada na inovadora biblioteca fora vetada pela segurança.

Vejam vocês: eu não estava despido ou descalço; não estava alcoolizado ou drogado; no auge da serenidade, um leitor a entrar pela porta de uma casa pública de livros. Não portava armas ou objetos pontiagudos, cortantes, ameaçadores; não trazia nas mãos bebida nem comida; não estava munido de câmeras, gravadores, microfones; inócuo como poucos, um leitor em busca do lugar melhor para exercer um direito - o "direito à literatura" defendido pelo professor Antonio Candido.

Desde que cadastrei-me como usuário do recente empreendimento cultural, pude perceber um ligeiro aprimoramento em alguns de seus serviços. No entanto, a segurança deste lugar é mais digna de nota que os demais setores. Logo que cheguei, dirigi-me ao guarda-volumes. Fui convidado a apresentar minha carteirinha de consulente - devidamente legitimada no sistema após consulta do código de barras - para obter uma chave. Pertences alojados, caminhei até a porta de acesso... e de lá não passei. Incauto, demasiado incauto, levava comigo dois livros, um lápis e umas poucas páginas fotocopiadas de um texto. Imaginem! Como era de se supor, dado o caráter pungente de minha conduta contraventora, meu desejo de usufruir do amplo e bem estruturado espaço dedicado à cultura letrada recebeu de um agente de segurança um preciso e irrevogável 'não'.

Devido à presença de grande volume de exemplares ainda não catalogados pela instituição, não é permitida a entrada de livros que não pertençam à biblioteca. Cometi esta falta ao julgar que meus livros fossem bem-vindos ali - como o são e sempre foram nas bibliotecas que costumo frequentar, inclusive as privadas. Queiram compreender, eu às vezes me esqueço da proposta diferenciada oferecida pela Biblioteca de São Paulo.

Uma funcionária, apresentando-se como responsável pelo local naquele momento, confirmou-me a restrição atentando para o risco de extravio do acervo. "Roberto Bolaño é persona non grata em nossa biblioteca-livraria", talvez ela me dissesse. Tive de assentir - o que haveria de fazer?, pensei. E, de pronto, disquei para o número da Ouvidoria do governo estadual, em destaque na parte superior do guichê de recepção. Relatei o ocorrido, exigindo providências por parte dos responsáveis.

Sou plenamente capaz de compreender razões e fundamentos da medida restritiva - assim como estou apto a imaginar o porquê da persistência do problema que a causou. De todo jeito, não vou especular quanto a isso. Pretendo apenas registrar o evento, cuidando que ele seja conhecido publicamente e que, com isso, suas contradições sejam reveladas pelos olhos de quem ler este manifesto. Além disso, espero - e cobrarei - da administração da Biblioteca de São Paulo a firma de um compromisso de solução breve e eficaz para este ridículo impasse.

Conforme preconiza a UNESCO, a respeito das bibliotecas públicas, seus serviços estão estabelecidos sobre o princípio da igualdade de acesso por parte de todas as pessoas, não obstante a faixa etária, o grupo étnico, o sexo, a crença religiosa, a origem regional, a língua ou o grupo socioeconômico a que pertencem. Dentre inúmeros itens, uma de suas principais missões sociais é "proporcionar oportunidades de desenvolvimento pessoal criativo" aos cidadãos que queiram dispor de seus recursos.

Um direito me foi negado. É meu dever, enquanto leitor, estudante, educador e, acima de tudo, cidadão, lutar para que ele se faça valer - para mim e para meus semelhantes.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A biblioteca entre livraria e lan-house

Hoje era o dia de visitar a moderníssima Biblioteca de São Paulo, a mais recente iniciativa cultural do Governo do Estado de São Paulo em parceria com a Poiesis. O novo edifício é abrigado pelo Parque da Juventude, projeto construído sob as ruínas da desativada porém inesquecível piscininha de Fleury.




Lembrei-me logo de cara da conversa de que a biblioteca nova seria semelhante a uma livraria. Fui recebido com excelente humor e aconchego pela segurança. Pertences alojados no guarda-volumes, encarei a fila para me cadastrar na instituição - algo normal em se tratando de inauguração.

A bibliotecária responsável pelo cadastramento dos usuários e pela confecção da carteirinha parecia ter chegado junto comigo. Cada passo do processo se apresentava a ela como uma grande e demorosa novidade. Após tirar minha foto, demonstrou não saber o que fazer com ela por um longo tempo. O número do meu RG foi registrado com erro no documento, mas não me importei; havia acontecido o mesmo com a senhora que estava à minha frente. Educado, prefiri o silêncio.

O piso térreo é dedicado ao público infantil, e a criançada fazia presença em quase todos os espaços, à exceção dos corredores das estantes. Sem economia, vi apenas uma criança com um livro nas mãos. O resto estava totalmente entregue às atrações audiovisuais. Uma bela lan-house.

Subindo as escadas rumo ao setor dos adultos, dei de cara com uma estante intitulada "mais vendidos" - triste demonstração de que aquele papo de biblioteca-livraria era sério mesmo. Para distrair-me da depressão instantânea, passeei pelo que seriam as estantes de livros novos. O curioso é que a maioria dos livros do neófito acervo parece ter sido comprada há pouco tempo. Ao menos a literatura contemporânea tem destaque. A estante de obras de referência também contribuiu para a minha animação.

Depois de um tempo, deparei-me com livros já marcados pelo tempo, dispostos aleatoriamente em estantes baixinhas que margeiam os corredores laterais. Senti-me um tanto perdido ao vagar pelo espaço do andar de cima. Não que seja vasto, mas a organização dos exemplares é bastante precária, caseira mesmo. Uma vergonha para uma biblioteca. E talvez para uma livraria também.

Enfim consegui encontrar os exemplares que procurava: "A arte de produzir efeito sem causa", de Lourenço Mutarelli, e "Vidas Novas", de Ingo Schulze. Carreguei as obras para uma poltrona colorida, sentei-me e degustei algumas páginas. Decidido a levá-las para casa, esbarrei num dos pecados mortais de toda biblioteca: oferecer aos consulentes volumes que ainda não foram catalogados.

Frustrado, retornei ao piso superior. Saquei "Duzentos ladrões", de Dalton Trevisan; "Ó", de Nuno Ramos; e "O amante detalhista", de Alberto Manguel. Contente, cheguei ao guichê de empréstimo.

Em sintonia com a bibliotecária que havia me recebido, o funcionário que então me atendia fazia questão de evidenciar que chegara precisamente naquele momento àquele posto. Eu sempre brincava, dizendo que nas repartições públicas, existe um que domina o ofício e o restante que lhe pergunta. Constatei que é a pura verdade.

Depois de 15 minutos, após observar a avançada disfunção tecnológica à disposição no balcão, pude cadastrar minha senha personalizada de quatro dígitos e levar comigo os livros.

Parece que temos tendência à insatisfação. Quero crer, no entanto, que trata-se apenas de não nos contentarmos com pouco. Há mais estandartes que estantes na Biblioteca de São Paulo. Muita estrutura, pouca literatura. Pensando em seus administradores, tenho a impressão de que a Poiesis se dedica, na verdade, a transformar instituições em aquilo que elas nunca foram. (Veja-se o Museu da Língua Portuguesa: inovador, interativo, mas de museu não tem nada.) Sei que laranja não é banana e não quero parecer conservador: tecnologia e interatividade são importantes. Mas não me agrada constatar que numa biblioteca os computadores tenham muito mais audiência que os livros.

Há que se reconhecer que o projeto é novo e muita coisa deverá ser feita ainda. Sinceramente, duvido que uma mudança substancial ocorrerá, dado que leitores não se criam do dia para a noite, ainda mais sem um projeto de Educação sólido e efetivo nas escolas. Mas meu coração não se cansa de ter esperança.

Atendimento

A Biblioteca de São Paulo funciona de terça a sexta, das 9h às 21h; e aos sábados, domingos e feriados, das 9h às 19h. A entrada é franca.


O estacionamento é pequeno e pago. Recomendo ir de metrô. Fica ao lado da estação Carandiru (Linha Azul). O endereço: Av. Cruzeiro do Sul, 2.630 - Prédio 3 - Parque da Juventude.


Leve seus filhos para passear.